
Um policial militar, que não estava em serviço, vestia bermuda e chinelo, acompanhado de um amigo e duas mulheres e que portava arma da corporação, a mesma com que disparou os tiros que atingiram a nuca de Thomas, acabou com a vida do jovem de 20 anos.
Os amigos guardam até hoje, 4 anos depois, as lembranças da tragédia e os passes de ônibus de Thomas.
Essa história nunca saiu da minha cabeça, pois estou fortemente ligada a ela. Thomas era meu amigo de faculdade, e o garoto que estava no banco do passageiro, ao lado de Thomas nos seus últimos segundos é meu namorado. No entanto, nas últimas semanas, lembro com mais freqüência deste fato e não é pelo caráter afetivo a que me remete.
No dia 6 de julho, João Roberto Amorim Soares, um garoto de 3 anos morreu no Rio de Janeiro, vítima de balas disparadas por policiais militares, 30 no total, das quais 16 atingiram o carro que sua mãe dirigia. O irmão, de 9 meses se salvou por pouco.
Os policiais que perseguiam o carro de bandidos, alegaram que em meio à troca de tiros, atingiram acidentalmente o carro com as crianças. No entanto, os laudos da polícia já detectaram que não houve troca de tiros, e imagens de câmeras de segurança de um prédio em frente ao local mostraram que a mulher estacionou seu carro ao notar a perseguição, ainda assim os policiais desceram de seus carros e alvejaram o veículo.
Ao ver as imagens deste filme em preto e branco, considero, em primeiro lugar quão despreparada é a nossa polícia. Parte desta culpa é do estado, que trata com descaso uma das funções mais importantes do país, a da polícia. A entidade está hoje sucateada, os salários da grande maioria é defasado e insuficiente, em geral, não há o devido treinamento, as condições de trabalho são insalubres, o que os leva, inúmeras vezes ao envolvimento com todo o tipo de corrupção. Fora das telonas, as tropas do Brasil não são de elite. Em conseqüência, a condição mental destes homens que andam com armas empunhadas é preocupante. Em meio a uma realidade onde os maniqueísmos de mocinho e bandido já não cabem mais, estes homens são convencidos de que detêm o poder de deliberar sobre a vida e a morte de alguém.
Tento pensar com frieza no caso do Rio de Janeiro. Mesmo que aquele carro, parado, com uma família dentro, fosse de fato o que estava sendo perseguido pela polícia, que motivos teriam os policiais para metralharem o veículo, buscando exterminar seus passageiros, sendo que nenhum tiro saiu de seu interior e que nenhuma agressão foi feita aos policiais?
Temos a tendência de desumanizar os “fora da lei”, mas devemos nos lembrar que vivemos em um país onde a pena de morte não é aceita. Que direito teriam aqueles policiais de tirar a vida de pessoas, fossem elas aquele garoto, ou os homens perseguidos?
Não defendo aqui que a polícia deva ser frouxa com aqueles que infringem as leis. Defendo sim que as leis de fato valham, por todos e para todos.
Os filtros das notícias nos impedem de saber quantas outras pessoas foram mortas, direta ou indiretamente por aqueles que deveriam nos proteger. Alguns casos vêm à tona, outros milhares ficam enterrados, nas vielas escuras de favelas, periferias, pequenas cidades, e outras terras de ninguém.
O poder da pólvora está subindo à cabeça destes homens, não apenas dos réus do caso do Rio de Janeiro ou do condenado pelo caso de Thomas, mas de outros milhares.
Os pais pedem que o caso não seja esquecido, alguns outros gostariam apenas que seu caso fosse ouvido e quem sabe um dia resolvido. Até quando permitiremos que este tipo de filme seja sucesso de bilheteria no Brasil? Um dia o protagonista pode ser você!





